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O QUE FAZ DE UM LIVRO UM CLÁSSICO?



O TEMPO LONGO DOS LIVROS

Colunista debate critério usado para avaliar obras e aferir produção intelectual nas ciências humanas

O que faz de um livro um clássico? Para o escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985), clássico é o “livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer” (Por que ler os clássicos?, p. 10/11). Mas quem define se um texto já se calou? A resposta óbvia seria: os leitores. Se um livro continua a ser lido – ou se um texto renasce das cinzas, como acontece freqüentemente, é porque ainda tem o que falar.

Seria bom se a resposta fosse simples assim... Mas, como os leitores só lêem os livros aos quais têm acesso, regras de mercado e políticas governamentais interferem naquilo que alguém lê ou deixa de ler.

Essa reflexão veio à tona por dois motivos: os cinqüenta anos do lançamento de Vassouras: um município brasileiro de café (1850-1900), de Stanley Stein, comemorados em 2007; e a criação do Qualis livro, novo instrumento de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior(Capes), órgão do governo que, entre outras atribuições, avalia os cursos de pós-graduação do país.

Qualis é o conjunto de procedimentos utilizados para aferir a qualidade da produção intelectual de professores e alunos dos programas de pós-graduação do país. Criado inicialmente para avaliar e classificar os periódicos científicos, o Qualis hoje também passou a ser usado para avaliar livros – demanda antiga, aliás, da área de humanidades, cujos resultados de pesquisas são difundidos, em grande medida, em livros.

A questão é: como se avalia a qualidade acadêmica de um livro? A discussão esquentou um bocado nos últimos encontros do fórum de coordenadores de programas de pós-graduação em história, ligado à Associação Nacional dos Professores de História (ANPUH). Se o critério de avaliação seguir o mesmo procedimento dos periódicos, dever-se-ia avaliar um livro pelo seu meio de difusão. Ou seja, pela editora que o publica. Seria, no entanto, este um procedimento justo, uma vez que o acesso às editoras não é livre e igual para todos os autores? Para os pesquisadores da área, é consenso que não.

Então, o livro poderia ser avaliado pelo grau de impacto – positivo ou negativo – que gera. Um livro muito citado em sua área é um livro que teve grande impacto. Mas qual é o tempo necessário para um livro circular e ser absorvido em uma área? É possível avaliar o impacto de um livro no mesmo ano, ou no ano posterior, à sua publicação?

A lição de Vassouras

Voltemos à comemoração do cinqüentenário da publicação de Vassouras. Estaria ele bem classificado no Qualis livro? A julgar pelos critérios da Capes, não necessariamente. Ou, ao menos, não sempre.

Fruto de trabalho de campo realizado em 1947 pelo historiador norte-americano Stanley Stein, a obra foi defendida como tese de doutorado em 1951 em Harvard e publicada em inglês em 1957. A primeira edição brasileira saiu em 1961.

Como o próprio autor recorda, na época seu interesse era estudar a economia e a sociedade das plantations brasileiras de café. Para isso, escolheu a região de Vassouras, no Vale do Paraíba fluminense, sede de algumas das maiores fazendas cafeeiras do país e destino da maioria dos africanos escravizados trazidos para o Brasil ao longo do século 19.

Na interseção entre história e antropologia, Stein utilizou em sua pesquisa fontes até então praticamente desconhecidas pela historiografia brasileira, de inventários post-mortem, empilhados nos cartórios da região, a jongos e entrevistas com descendentes de escravos, gravados em uma pequena bobina de arame.

Comparado por Silvia Lara, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a uma canela, árvore alta que cresce bem devagar, o livro teve trajetória bem diferente no Brasil e nos Estados Unidos: enquanto lá foi festejado por brazilianistas e especialistas na cultura afro-americana, sendo continuamente reeditado, aqui, depois de um período de sucesso nos anos 1960, quando foi referência nas teses que enfatizavam o caráter violento da escravidão brasileira, foi aos poucos caindo no ostracismo.

Na década de 1970, época que privilegiava estudos mais engajados e debates teóricos mais explícitos, o livro já não causava o mesmo furor. Quer dizer: se fosse avaliado pelo Qualis na década de 1960, quando foi publicado em português, o livro certamente seria bem classificado. Agora, se fosse publicado na década de 1970, o destino de Vassouras seria bem outro. Longe das discussões da moda, o impacto do livro chegava apenas a algumas poucas notas de rodapé.

Moda historiográfica

Mas esta história não acaba por aqui. Como acontece com freqüência no mundo da alta costura, a moda historiográfica também muda. E mudou muito no final dos anos 1980, com a valorização dos estudos monográficos de áreas cafeeiras, principalmente aqueles que utilizavam documentos de maneira inovadora e criativa, como Vassouras.

Foi a partir de então que o livro voltou a ganhar a preeminência que tinha mais de vinte anos antes. Hoje, quem diria, o livro voltou a povoar a bibliografia dos cursos de história do país, influenciando novas e novíssimas gerações de historiadores. Que o digam os três livros e o filme lançados entre 2007 e 2008 e inspirados, de diferentes maneiras, no texto de Stein.

Em As Memórias da Viscondessa: família e poder no Brasil Império (Jorge Zahar, 2008), Mariana Muaze conta a história da vida privada das famílias Ribeiro de Avellar e Velho da Silva, que vieram a constituir, no século 19, o núcleo familiar cafeeiro mais poderoso da região de Paty do Alferes, vizinha a Vassouras.

Dialogando freqüentemente com o texto de Stein, Mariana é igualmente inventiva na escolha e no tratamento de suas fontes, que incluem diários, cartas, fotografias e até plantas das fazendas de café. Não é à toa que seu livro, originalmente tese de doutorado defendida na Universidade Federal Fluminense (UFF), ganhou dois prêmios: a Menção Honrosa do Prêmio Jorge Zahar deste ano e o Concurso de Monografias 2007 do Arquivo Nacional.

Diálogo ainda mais intenso é o estabelecido por Ricardo Salles em seu mais recente livro, E o vale era o escravo – Vassouras, século XIX. Senhores e escravos no coração do Império (Civilização Brasileira, 2008). Utilizando como fontes principais os mesmos inventários lidos por Stein cinqüenta anos antes, só que, desta vez, classificando-os em um grande banco de dados hoje disponível para consulta pública na internet, Salles revisitou Vassouras para estudar a classe senhorial cafeicultora, suas relações com a crise política da escravidão brasileira e as relações entre senhores e escravos na região.

Por fim, em Memória do Jongo: as gravações históricas de Stanley J. Stein – Vassouras, 1949, organizado por Silvia Lara e Gustavo Pacheco (Folha Seca/ Cecult, 2007), historiadores e antropólogos, incluindo o próprio Stein, discorrem sobre a centralidade das entrevistas com ex-escravos e das gravações de canções e pontos de jongo para o estudo do que hoje veio a ser chamado de história e cultura afro-brasileira. O livro vem acompanhado de um pequeno tesouro: um CD com as próprias gravações de Stein, que por décadas ficaram guardadas em seu escritório e que pareciam não poder ser recuperadas.

As mesmas canções que inspiraram a recuperação das antigas gravações fizeram com que as historiadoras Hebe Mattos e Martha Abreu colocassem o pé na estrada, em busca dos descendentes de escravos de várias regiões do Vale do Paraíba. Queriam saber se, ainda hoje, eles se lembravam dos pontos de jongo cantados por seus pais, avós e bisavós, e o que guardavam, na memória, dos tempos da escravidão vividos por seus antepassados. O resultado da pesquisa está no DVD Jongos, Calangos e Folias: música negra, memória e poesia e na página virtual de mesmo nome.

Alguém duvida que Vassouras é um livro que não tem ponto final? O texto é o mesmo desde 1957; os leitores é que mudaram. É desejável que seja assim. Talvez o principal risco da proposta de avaliação de livros da Capes seja a possibilidade de interferência em sua trajetória futura. Voltando ao velho e bom Calvino: se o tempo das humanidades é o dos “tempos longos”, que tal considerá-lo, o tempo também, como critério de avaliação?
Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
12/12/2008


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